Apresento por meio deste texto uma discussão introdutória a respeito de como a Análise do Comportamento encara dois dos principais conceitos de mente vigentes hoje em dia. O que se vê aqui, no entanto, é apenas uma pincelada no assunto. Existem diversas linhas de pesquisa a respeito do conceito, mas para os objetivos deste texto torna-se desnecessária uma discussão aprofundada delas.
A princípio é preciso que se faça uma distinção entre estes conceitos. São eles: 1) o cérebro em funcionamento; e 2) estrutura metafísica acessível através da interpretação de sonhos, atos falhos, xistes, etc.
O primeiro conceito é adotado pela neurociência e áreas correlatas. Mente, para estes, corresponde à atividade cerebral. Estudar a mente, neste caso, é investigar como os processos cerebrais ocorrem e se relacionam aos nossos comportamentos, sentimentos, etc.
Existe uma corrente dentro da Neurociência (não toda a neurociência) que defende que são estas atividades cerebrais (mente) que provocam o comportamento. É como se, para que um rapaz dissesse "eu te amo" para sua namorada, dependesse exclusivamente da ocorrência de algum tipo de atividade cerebral; basta o cérebro "mandar" e ele diz, independente de qualquer outra coisa.
Antes de mais nada, é importante deixar claro que, para a Análise do Comportamento, a ocorrência destes processos é condição sine qua non para a emissão de qualquer comportamento - eles, no entanto, não são tomados como causa. Quando um comportamento ocorre em uma situação específica, ele gera algumas consequências no ambiente. São estas consequências, para a Análise do Comportamento, que determinam se ele vai voltar ou não a ocorrer naquela situação específica. Deste modo, os processos cerebrais correspondem à mecânica de como o comportamento ocorre, e não aos motivos pelos quais ele ocorre.
Por exemplo: para que o rapaz diga "eu te amo", ele deve estar em contato com a namorada, que dá a ele atenção, carinho, faz algum comentário agradável, etc. Se ele diz a mesma frase quando em contato com um policial militar na rua, por exemplo, certamente as conseqüências que ela irá gerar no ambiente são bem diferentes. Deste modo, é mais provável que o rapaz diga "eu te amo" na presença da namorada do que na presença do policial.
E os processos cerebrais onde ficam nisso? Bom, é através dos neurônios aferentes que estes estímulos (visuais, auditivos, táteis, etc.) são captados. Através das sinapses são transmitidos pelo organismo e levados até o cérebro que, em função da história de aprendizagem daquele indivíduo, gera outro processo sináptico que estimula as cordas vocais e o namorado diz "eu te amo", caso na presença da namorada. Se houver qualquer interrupção neste processo sináptico o comportamento também se altera - esta interrupção corresponde a uma alteração no organismo que, se alterado, obviamente é alterada também a sua relação com o ambiente.
Todo este processo não faz parte do campo de estudo do Analista do Comportamento, e sim dos neurocientistas. Ele corresponde à mecânica de como o comportamento ocorre (o estímulo é captado pelo neurônio aferente, transmitido via interneurônios, etc., até que a resposta seja emitida).
O Analista do Comportamento vai estudar este estímulo (presença da namorada ou do policial), correspondente ao estímulo antecedente (situação) ao comportamento; estuda também o comportamento (namorado dizer "eu te amo"); e as conseqüências que ele gera no ambiente (atenção, caso seja a namorada; bronca, caso seja o policial); consequências estas que determinam se o comportamento volta ou não a ocorrer na presença daquele estímulo antecedente. O mesmo vale para qualquer outro comportamento, inclusive sentimentos e pensamentos.
Fazendo um paralelo, o papel da sinapse no comportamento equivale ao de um acelerador no arrancar do carro. Sem ela nada aconteceria. É preciso que a sinapse ocorra para que o comportamento ocorra, assim como é preciso que o acelerador opere para que o carro comece a andar. É preciso também, no entanto, que exista alguma condição para que esta sinapse ocorra, assim como é preciso que alguém pise no acelerador para que ele opere.
Investigar e discutir estas condições é o papel do Analista do Comportamento. A quem quiser entender melhor eu indico o livro Conhecer o Behaviorismo - comportamento, cultura e evolução, de William M. Baum, 2006; ed. Artmed. Investigar o que ocorre dentro do organismo, é papel dos neurocientistas.
Deste modo, são áreas complementares: o analista do comportamento não tira a importância do neurocientista e do estudo dos processos cerebrais, e o estudo dos processos cerebrais não tira a importância da análise do comportamento.Um estuda os motivos pelos quais o comportamento ocorre, o outro estuda como ele ocorre.
O segundo conceito de mente a ser discutido é o psicanalítico, aquele que nos remete a uma estrutura metafísica acessível através da interpretação de sonhos, atos falhos, xistes, etc. Existem variações deste conceito, dentro da própria Psicanálise, assim como entre as abordagens mentalistas da Psicologia.
De modo geral, estas abordagens preconizam que esta instância psíquica controla nossos comportamentos – muito embora não se saiba como. Cada uma das abordagens mentalistas trata o conceito de mente à sua maneira; o que, por conseqüência, significa que para cada uma delas a maneira através da qual a mente controla nosso comportamento também é diferente.
Esta mente nunca foi observada, nunca foi medida, nunca foi demonstrada de maneira nenhuma por ninguém. O que se tem a respeito dela são interpretações – atribuições de significado conforme a história pessoal daquele que interpreta. Ela é inferida a partir da observação direta dos comportamentos, tal qual a vis viva (substância responsável pela vida) já foi inferida pela medicina antiga, ou o flogisto (substância responsável pelo aquecimento e queima dos elementos) pela química.
Do mesmo modo como a Medicina já não precisa da teoria da vis viva para explicar a vida e a química não precisa da teoria flogística para explicar a queima dos elementos, a psicologia também não precisa mais da mente enquanto entidade metafísica ou constructo teórico para explicar o comportamento. Assim como nas demais ciências, o o comportamento passou a ser estudado por meio da descrição de relações funcionais, o que, do mesmo modo, tem permitido diversos avanços e criação de tecnologia para manejo comportamental nos diversos contextos.
Assim como a Teoria da Evolução, no entanto, a teoria do Comportamento sofre resistência. Como dizem os psicólogos sociais, toda idéia que ameaça romper com um padrão ideológico pré-estabelecido irá enfrentar resistência.
Ainda hoje existem pessoas que não dão valor a teoria da evolução das espécies, então o que se pode esperar do modo como as pessoas irão encarar uma teoria muito mais recente do que ela?
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
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4 comentários:
Opa! Tudo beleza
Excelente texto, curto e claro, muito bom mesmo. Só faço duas observações ou sugestões: 1) no 10° parágrafo em "(...)o analista do comportamento não tira a importância do neurologista e do estudo dos processos cerebrais(...)", acho que ficaria mais claro se o neurologista fosse substituído pelo neurocientista. Enquanto que o neurologista possui um profundo conhecimento da função orgânica dos tecidos cerebrais em seu funcionamento normal e patológico, o neurocientista estuda tal funcionamento de forma mais abrangente. Em última análise, o conceito moderno (ou o conceito mais esclarecido atualmente) de 'mente' está mais para o âmbito da neurofilosofia; e 2) no último parágrafo, onde está escrito "(...)não há mais a necessidade de se inferir a existência de uma mente(...)", penso que se refere ao construto teórico da psicanálise. A ideia de mente como produto dos processos cerebrais ainda é útil e está se tornando bem concreta, na medida que é entendida enquanto configuração sináptica individual e produto da atividade metabólica celular e atividade eletroquímica intersináptica.
Da mesma forma que o acelerador no andar do carro, a sinapse é parte do mecanismo (pé -> acelerador -> motor -> pneus -> etc / ambiente -> estímulo -> placas terminais -> etc) existe um construto físico na forma de neurônios, neurotransmissores, as próprias ações potenciais, que definem 'mente'.
Olá Mr. Córtex!
Muito obrigado pelo elogio. E cara, excelentes os toques que deu a respeito do texto, já mudei lá, e mudei também muitas outras coisas nele. Reescreví praticamente. Obrigado mesmo!!!
Continue visitando sempre que possível.
Abraços.
muito bom o texto! de muita qualidade msm..
parabéns e continue escrevendo textos otimos assim...
Oi Neto, está em destaque também a concepção de mente da Psicologia Evolucionista. Esta abordagem vê a mente como um conjunto de mecanismos psicológicos evoluídos com a espécia, evocativas do ambiente ancestral que a constituiu. Eles consistem em emoções, preferências e propensões que foram selecionadas por terem ajudado nossos ancestrais a sobreviverem e se reproduzirem no passado. Os próprios costumes culturais que são passados através de fala, são costumes que em algum momento do passado da espécie ajudaram-na a adaptar-se ao ambiente.
Como o ambiente vem se modificando, a psicologia evolutiva trabalha ajudando a pessoa a se adaptar de maneira mais favorável a sua sobrevivência nele.
Parabéns pelo texto.
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